17. Viagem ao mundo da droga.
Pelas seis ou sete horas somos acordados em sobressalto por grandes gritos.
É uma voz aguda, uma voz de criança que grita. E os gritos são terríveis. Insuportáveis.
Primeiro estridentes, transformando-se a pouco e pouco numa prolongada queixa espantosa, que vem do fundo da garganta, que sobe, pára e recomeça continuamente.
- Mas é o nosso garoto! - exclamo eu. - É a sua voz.
- Julgas? - responde Guy. - Estás louco...
- Sim, assegura-te. Escuta.
À nossa volta acordaram outras pessoas que, elevando-se sobre o cotovelo, também escutam.
Os gritos vêm de cima, de três ou quatro barcos acima de nós, ao que parece.
- É por ali que o rapaz ontem andava a nadar - digo eu a Guy.
- Tens razao, é estranho.
- Vamos ver.
Encontramo-nos no cais, sob os primeiros raios de sol.
O mais depressa que nos é possivel subimos a margem do rio.
A voz, agora surda, orienta-nos. Em breve se cala, numa espécie de estertor. Mais nada...
Já não precisamos que a voz nos oriente. Na ponte do quarto barco acima do nosso há uma duzia de homens e mulheres reunidos, inclinados.
É com certeza ali que alguma coisa se passa.
Saltamos para a ponte e aproximamo-nos.
E então, no meio do grupo, vemos uma cena infernal.
Um homem, com uma faca ensanguentada na mão, está inclinado sobre um corpinho deitado no pavimento, atravessado na ponte.
Dois outros seguram o corpo com os braços em cruz e um terceiro fixa-lhe sólidamente as ancas, ajoelhado sobre a perna direita.
O rapaz tem a cabeça voltada de lado. Está demasiado, branco como o linho.
É o nosso pequeno revendedor.
Ninguém agora precisa já de segurar também a sua perna esquerda.
Foi cortada acima do joelho...
Em dois ou tres movimentos certeiros, o homem acaba de cortar os últimos pedaços de carne que seguram o membro à coxa, aplica um garrote para sustar a hemorragia, trabalha na ferida e cobre-a com um pano.
Durante um momento imagino que o rapaz teve um acidente e que foi por isso que o amputaram.
Mas não; a pequenina cortada, pousada no sangue sobre a ponte, está intacta, perfeitamente sã.
Foi de propósito que mutilaram o rapaz!
Eis o que se pode ver na Índia, em 1969, em pleno século XX...
Guy e eu, desvairados, mal acreditando na realidade deste espectáculo de pesadelo, aprostofamos um homem e uma mulher que ali se encontra, plácidos, atrás do rapaz desmaiado, e que abandonaram à luz do sol.
Olham para nós sem responder, com um olhar vazio.
- O que é isto? O que fizeram? Porquê? Porquê?
Grito, sacudo o carrasco pelas abas da sua camisa.
Repele-me, resmunga uma injúria e ameaça-nos com a faca.
A minha raiva é tal que mesmo assim lhe quero saltar ao pescoço, mas os outros põem-se a seu lado e vejo aparecer outras facas.
Os olhares tornam-se ferozes.
Bem sei que em Benares podemos ser sangrados como qualquer coelho, só porque se é europeu e se supõe termos uma carteira bem recheada.
Insistir seria loucura. Aliás Guy, aterrado, puxa-me para trás.
- Vem depressa, - diz ele - não sejas idiota.
Recuamos, voltamos ao cais.
Antes de partir lanço um último olhar ao barco. Uma mulher, inclinada sobre o garoto, esbofeteia-o para o fazer voltar a si.
O carrasco pega na perna e deita-a ao rio, que a leva na corrente.
A perna do meu pequeno revendedor do Ganges, de oito anos, que nunca mais poderá correr nem dançar.
Quando voltamos ao nosso barco tenho a explicação, dada pela boca do dono do barco.
Mutilaram o rapaz para o porem a pedir esmola...
Porque um garoto mutilado desperta muito mais piedade, e recebe mais dinheiro. Em todo o caso, muito mais do que a revender ganja, que se encontra por toda a parte.
Descrevo o carrasco ao patrão. Conhece-o.
É o pai do garoto.
E foi esta a pura verdade com que Charles Duchaussois se deparou aquando da sua passagem pela Índia.
Para mim, que acabei de ler o livro agora, foi das passagens que mais me marcaram de todo o livro, vou postar uma outra ainda que tambem me marcou assim um bocado.
Acho que o livro está mesmo muito bom, nao so pela forma como está escrito (muito acessivel) mas tambem por nos contar, com clareza e com veracidade, toda uma historia vivida pelo autor depois de ter caído bem fundo no mundo da droga.
Aconselho a todos os que gostam de ler, histórias veridicas e não so, e que de certo modo se interessam por drogas, ou têm o interesse de saber a sensaçao de certa droga ou algo do genero, aconselho vivamente, porque o autor esclarece-nos de tudo isso, falando-nos com expriencia de alguem que ja passou por isso.
Bem, em relação ao excerto do texto, tem certas coisas que voces possivelmente ou nao sabem o que sao ou que tambem nao se percebe por tar fora do texto. Pois bem, eu explico algumas coisas...
Os barcos a que ele se refere, sao uns barcos que há no rio Ganges (o rio que passa pela Índia) que servem de "hoteis", barcos que têm uma cama e que se alguma para passar a noite.
O garoto, foi quem vendeu ganja a charles durante a sua estadia, era portanto um revendedor.
A ganja é uma planta, uma droga que se fuma, parecida com haxixe mas muito mais fraco.
Acho que não ha mais nada que possam nao entender...
Espero que gostem (nao sei se gostar é o verbo indicado devido ao que é abordado, mas de momento nao me lembro de melhor).
Beijinhos e Abraços
(principalmente para os que foram dando noticias enquanto tive fora
)
[*]
É uma voz aguda, uma voz de criança que grita. E os gritos são terríveis. Insuportáveis.
Primeiro estridentes, transformando-se a pouco e pouco numa prolongada queixa espantosa, que vem do fundo da garganta, que sobe, pára e recomeça continuamente.
- Mas é o nosso garoto! - exclamo eu. - É a sua voz.
- Julgas? - responde Guy. - Estás louco...
- Sim, assegura-te. Escuta.
À nossa volta acordaram outras pessoas que, elevando-se sobre o cotovelo, também escutam.
Os gritos vêm de cima, de três ou quatro barcos acima de nós, ao que parece.
- É por ali que o rapaz ontem andava a nadar - digo eu a Guy.
- Tens razao, é estranho.
- Vamos ver.
Encontramo-nos no cais, sob os primeiros raios de sol.
O mais depressa que nos é possivel subimos a margem do rio.
A voz, agora surda, orienta-nos. Em breve se cala, numa espécie de estertor. Mais nada...
Já não precisamos que a voz nos oriente. Na ponte do quarto barco acima do nosso há uma duzia de homens e mulheres reunidos, inclinados.
É com certeza ali que alguma coisa se passa.
Saltamos para a ponte e aproximamo-nos.
E então, no meio do grupo, vemos uma cena infernal.
Um homem, com uma faca ensanguentada na mão, está inclinado sobre um corpinho deitado no pavimento, atravessado na ponte.
Dois outros seguram o corpo com os braços em cruz e um terceiro fixa-lhe sólidamente as ancas, ajoelhado sobre a perna direita.
O rapaz tem a cabeça voltada de lado. Está demasiado, branco como o linho.
É o nosso pequeno revendedor.
Ninguém agora precisa já de segurar também a sua perna esquerda.
Foi cortada acima do joelho...
Em dois ou tres movimentos certeiros, o homem acaba de cortar os últimos pedaços de carne que seguram o membro à coxa, aplica um garrote para sustar a hemorragia, trabalha na ferida e cobre-a com um pano.
Durante um momento imagino que o rapaz teve um acidente e que foi por isso que o amputaram.
Mas não; a pequenina cortada, pousada no sangue sobre a ponte, está intacta, perfeitamente sã.
Foi de propósito que mutilaram o rapaz!
Eis o que se pode ver na Índia, em 1969, em pleno século XX...
Guy e eu, desvairados, mal acreditando na realidade deste espectáculo de pesadelo, aprostofamos um homem e uma mulher que ali se encontra, plácidos, atrás do rapaz desmaiado, e que abandonaram à luz do sol.
Olham para nós sem responder, com um olhar vazio.
- O que é isto? O que fizeram? Porquê? Porquê?
Grito, sacudo o carrasco pelas abas da sua camisa.
Repele-me, resmunga uma injúria e ameaça-nos com a faca.
A minha raiva é tal que mesmo assim lhe quero saltar ao pescoço, mas os outros põem-se a seu lado e vejo aparecer outras facas.
Os olhares tornam-se ferozes.
Bem sei que em Benares podemos ser sangrados como qualquer coelho, só porque se é europeu e se supõe termos uma carteira bem recheada.
Insistir seria loucura. Aliás Guy, aterrado, puxa-me para trás.
- Vem depressa, - diz ele - não sejas idiota.
Recuamos, voltamos ao cais.
Antes de partir lanço um último olhar ao barco. Uma mulher, inclinada sobre o garoto, esbofeteia-o para o fazer voltar a si.
O carrasco pega na perna e deita-a ao rio, que a leva na corrente.
A perna do meu pequeno revendedor do Ganges, de oito anos, que nunca mais poderá correr nem dançar.
Quando voltamos ao nosso barco tenho a explicação, dada pela boca do dono do barco.
Mutilaram o rapaz para o porem a pedir esmola...
Porque um garoto mutilado desperta muito mais piedade, e recebe mais dinheiro. Em todo o caso, muito mais do que a revender ganja, que se encontra por toda a parte.
Descrevo o carrasco ao patrão. Conhece-o.
É o pai do garoto.
E foi esta a pura verdade com que Charles Duchaussois se deparou aquando da sua passagem pela Índia.
Para mim, que acabei de ler o livro agora, foi das passagens que mais me marcaram de todo o livro, vou postar uma outra ainda que tambem me marcou assim um bocado.
Acho que o livro está mesmo muito bom, nao so pela forma como está escrito (muito acessivel) mas tambem por nos contar, com clareza e com veracidade, toda uma historia vivida pelo autor depois de ter caído bem fundo no mundo da droga.
Aconselho a todos os que gostam de ler, histórias veridicas e não so, e que de certo modo se interessam por drogas, ou têm o interesse de saber a sensaçao de certa droga ou algo do genero, aconselho vivamente, porque o autor esclarece-nos de tudo isso, falando-nos com expriencia de alguem que ja passou por isso.
Bem, em relação ao excerto do texto, tem certas coisas que voces possivelmente ou nao sabem o que sao ou que tambem nao se percebe por tar fora do texto. Pois bem, eu explico algumas coisas...
Os barcos a que ele se refere, sao uns barcos que há no rio Ganges (o rio que passa pela Índia) que servem de "hoteis", barcos que têm uma cama e que se alguma para passar a noite.
O garoto, foi quem vendeu ganja a charles durante a sua estadia, era portanto um revendedor.
A ganja é uma planta, uma droga que se fuma, parecida com haxixe mas muito mais fraco.
Acho que não ha mais nada que possam nao entender...
Espero que gostem (nao sei se gostar é o verbo indicado devido ao que é abordado, mas de momento nao me lembro de melhor).
Beijinhos e Abraços
(principalmente para os que foram dando noticias enquanto tive fora
)[*]
4 Comments:
Fdx =\
Tu és maluco a ler livros destes =O
Não sei o que dizer =\ Mutilar só para pedir esmola. Enfim...
Fika bem e welcome back[[]]
Porra :| Comék é possivel isto acontecer em pleno séx. XX e ng fazer nd ? :|
Estas coisas revoltam-m mm a sério .. :x
Coitado do miudo. Mas como isto existem coisas mm sem explicação, como por exemplo, pessoas ainda serem mortas à pedrada só por trairem os maridos .. argh :| esta gente não se manca :X
Bem gostei do post .. ;) e só não leio o livro pq não gosto muito d ler :x
Beijinhos *
De certa forma não fiquei muito chocado com o que li. Não é meu espanto ao saber que isto acontecia há "meia duzia" de anos atrás. O dinheiro, para muitos, poe-se acima de qualquer coisa e, para esses mesmos, é como se fosse a melhor coisa que existisse à face da terra sem se lembrarem que há pessoas com sentimentos e com vontade de viver, coisa que não se lembram quando matam alguém por uns trocos...
Vivemos cá! Sujeitamo-nos ao que há e ao que acontece... Será sempre assim amigo Hige ;)
Não sou muito (ou mesmo nada) dedicado a leitura mas gosto de ler estes pequenos excertos quando, de certa forma, são interessantes, pois só assim é que temos noção da realidade em que vivemos.
Grande Abraço, continua! :P
FOgo, k cena meu! LOL que raio de livro, e k tal leres livros de princesas e reis com fantasia e tal e k acaba tudo feliz? lol tou no gozo... por acaso o livro parece ser muito interessante...
pode ser k leia-o kando for pa xcola, ja k tenho k ler livros né? loool
beijokasss adrt**
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